Sobre Protestos, Ironia e Expressão

#17jcwb - Santos Andrade

Aviso logo: esse não é um texto sobre política, nem de longe.

Quando começaram as informações sobre os confrontos nos protestos contra o aumento da tarifa em São Paulo, eu fiquei vidrada. Por algum motivo que eu ainda não entendia, tudo aquilo me comovia, me sugava de um jeito que há tempos eu não me envolvia. Algo terminou de me despertar de um estado de apatia em relação ao coletivo que eu andava cultivando há muito tempo, situação essa que já tinha me tirado a vontade de interagir no Twitter e que fez com que meus posts no Facebook se resumissem a um ou outro compartilhamento sobre coisas de trabalho.

Essa minha apatia cresceu a medida que o “estado geral de ironia” tomou conta dessas redes. Eu curto uma ironia, mas, de repente, todo mundo parecia se sentir obrigação ironizar qualquer um que tivesse uma opinião ou ideia, independente do assunto, independente do objetivo. O importante era a ironia pela ironia, era se colocar numa esfera a parte, se distanciando, ridicularizando e diminuindo qualquer assunto e fazer o coleguinha rir para se afirmar na turminha da ironia. Aqui tem um texto que aborda bem esse estado de ironia, vale a leitura. Aos poucos eu comecei a sentir que simplesmente não valia a pena entrar nessa brincadeira, que não valia nem tentar começar uma conversa séria porque, por costume geral, ela ia cair numa piadinha e morrer com o próximo meme vazio. Ninguém comentava mais argumentando e questionando, só tentando cravar uma ironiazinha marota. Aos poucos tudo foi ficando morno e engraçadinho, mesmo quando a tentativa da ironia era de supostamente criticar um problema, aquilo simplesmente se perdia no bolo. Senti que o diálogo tinha estagnado e que não valia mais a pena ficar falando sozinha.

E o clichezão da viagem-que-abre-a-sua-cabeça aconteceu.  A primeira coisa que vi em Paris (siiiim, Paris de novo), já no aeroporto, foi um protesto. Dezenas de pessoas se deslocaram da cidade até o Charles de Gaulle para protestar, cantando o Hino Nacional e palavras de ordem. Fui embora sem saber o porquê daquele protesto específico, mas de cabeça aberta para entender o que na cultura daquelas pessoas era diferente o suficiente para elas acharem que valia a pena sair de casa para dizer o que pensavam e que os seus atos faziam diferença. É gritante como eles ponderam a individualidade de cada um pelo bem do coletivo, como cedem um pouco das suas possibilidades para garantir algo melhor e de forma mais extensa para todos – isso vai do bom uso do “com licença/obrigado”, passa pela baixa velocidade máxima dos carros na rua, por uma mídia que questiona os porquês, e chega até os protestos. Enquanto aqui, eu basicamente só ouvia o “não adianta, não vou porque só eu não mudo, só a gente não faz nada, não adianta reclamar, não quero ser chato por reclamar”. No tempo que era mais ativa com proteção animal, ouvi de muitas pessoas que não adiantava resgatar um bicho, porque sempre ia ter mais um na rua. Sempre o mesmo discurso passivo e conformista de que nada adianta, de diminuição do trabalho dos outros, assim como no discurso da ironia.

Foi aí que o protesto em São Paulo me pegou. Era gente incomodada e reclamando, saindo da zona de conforto, deixando de ser apático e mudo para mudar alguma coisa. Era gente sofrendo por fazer isso diferente, mas sem perder a força, sem perder a vontade de continuar fazendo, sem ficar calado na primeira pedra que levou. Foi reconfortante ver que a ironia deu lugar a uma verborragia sem fim de vontade de mudar, mesmo que a maioria não soubesse o que, mas a faísca estava ali, a vontade de fazer algo estava ali. Eu senti que eu precisava fazer parte disso, pela tarifa, pelo direito de me incomodar, protestar e reivindicar, pelo direito de todos se incomodarem e protestarem e principalmente para reacreditar que a minha força pode ser um pequeno pedaço rumo a alguma mudança. E tenho muita esperança que toda essa movimentação acordou a auto-confiança de muita gente, porque sem essa força individual, não temos nenhum coletivo e viramos um “go with the flow” eterno, morno e deprimente.

No #17jcwb, era visível como a maioria ainda procurava entender o que estava acontecendo, qual seria o próximo movimento, o próximo grito, o próximo passo. Eram vários perdidos que se encontravam no mesmo grito. “Vem pra rua”, “Ei cidadão, vem pra rua, essa luta também é sua”, “da copa eu abro mão, quero saúde, transporte e educação”, algumas tentativas políticas eram vaiadas, assim como vandalizações. As pessoas estavam ali para se achar e não necessariamente para definir nada. E não, não acho que isso é horrível. Sair do ponto morto é uma forma de expressão tão válida quanto qualquer outra, pode não ser uma forma eficiente de reivindicação, mas pelo menos te coloca em um estado de alerta, de busca por informações.

Sinto que muita gente acordou, eu acordei. Vi várias pessoas se lamentando por não ter acompanhado a política, por não saber o que muito daquilo representava, que queriam entender mais. E só por isso toda essa movimentação já vale a pena. Mas como qualquer despertar abrupto, daqueles que te deixam desnorteado, uma parte da gente por tanto se perdeu no meio do discurso vazio dos últimos tempos (não só vazio político, mas de discussão e reflexão de interesses gerais), que entrou em desespero quando não conseguiu assimilar toda essa realidade acontecendo a sua volta. Os mais ansiosos só conseguem focar nos problemas, ignoram datas de notícias, compartilham a ansiedade através de links que nem chegaram a entender, mas que repassam como se estivessem em busca da primeira resposta que vier na frente, para não ter que lidar com todo esse incômodo complexo. Nem todo mundo, infelizmente, sabe lidar com o sentimento de inquietação. Mas ainda prefiro inquietos, meio perdidos e loucos para se achar, do que passivos, engraçadinhos e bobos, achando que a vida é que tem que te levar de boa.

Nessa altura dos acontecimentos, quem antes tentava desmerecer a força das mudanças, agora está entre o “eu avisei” e o “vocês não sabem o que estão fazendo”. Mas vejo feliz que cada vez menos gente se esconde atrás da ironia vazia. E que a gente que acordou não se deixe desanimar pela nossa própria ignorância em cima do novo, que exista calma para avaliar as coisas e ter as próprias opiniões, que nunca olhe para trás e ache que tudo isso não fez nenhuma diferença.

Pronto, comenta!